Sugerindo-te a ideia, caro Zé Fernandes, facilmente imaginarás a ambiência social que decorria em Lisboa e no Porto na época das invasões francesas, entre 1807 e 1814, ora entre a soldadesca invasora, ora entre as tropas inglesas, nossas aliadas, que ajudaram decisivamente Portugal a manter a sua soberania.
Em 30 de Novembro de 1807, comandando um exército extremamente desgastado e faminto, o General Junot, um dos amados títeres militares de Napoleão Bonaparte, após penosa marcha de centenas de quilómetros, tomou e apoderou-se de grande parte da cidade de Lisboa. No dia anterior, entre um séquito de 15 mil nobres embarcados em 34 navios, a Família Real portuguesa tinha fugido para o Brasil.
Só em Agosto do ano seguinte, depois de diversos confrontos entre os sitiadores e a nossa resistência, o general Arthur Wellesley, mais tarde Duque de Wellington, comandando uma força britânica, conseguiu pôr termo ao domínio invasor, vencendo sucessivamente as batalhas de Roliça e do Vimieiro, forçando o inimigo à Convenção de Sintra, o que permitiu a retirada do que restava do exército napoleónico em navios ingleses.
Assim, amigo Zé, num dado momento e em gostosa diversão nocturna, numa daquelas heterógeneas e muito concorridas tascas alfacinhas, estava um grupo de foliões bebendo e fumando entre camareiras, enquanto um soldado inglês, em exímio dedilhado, tocava um mandolim. Atento à cena, preso de fascínio ao magnífico som que se soltava do curioso instrumento, estava um afamado marceneiro português também a bebericar uns copos. Deliciado com o espectáculo que fruiu, o oportuno marceneiro, captando quanto possível de memória as formas do mandolim, não descansou até produzir, ao cabo de aturada trabalheira, um artifício idêntico...
Quanto a mim, Zé, em relacional raciocínio sobre os factos práticos da vida, quero crer que foi um desiderato, mais ou menos como aquele que descrevo, que deu origem à feitura da nossa muito peculiar e apaixonante guitarra portuguesa.

UMA CARTA A PROPÓSITO DE...

Reserva integral de Direitos de Autor - SPA 1.1453 Som = António Chainho à Guitarra Portuguesa Retorno